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01/12/2004
ÉTICA NA MÚSICA

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Leia a matéria que o Michel escreveu pro site “Vitrine- Música e Negócios”, falando sobre Ética na música. São cinco tópicos sugerindo uma conduta para, principalmente, quem precisa ser músico profissional. E que, segundo o próprio Michel, são pontos que ele mesmo usa como base de sua conduta humana e profissional. Pra ler a matéria, clique aqui.

ÉTICA NA MÚSICA

Como será viver de arte no Brasil? Quais as chances de se tornar um músico profissional e viver exclusivamente da música? Michel Leme é Professor de guitarra, compositor, acompanha outros músicos, tem sua banda, lançou 2 CDs, muito bem recebidos pela crítica e público e por isso é talvez uma referência de como conquistar prestígio e se inserir neste mercado onde muitos acham que é apenas o fator sorte que beneficia este ou aquele artista.

A convite do Vitrine, Michel dá dicas preciosas e diz com convicção que escreve pra quem precisa ser músico profissional. E destaca que são dicas para quem "precisa" e não para quem apenas "quer" pois, para esses certamente faltará motivação e eventualmente, o dom musical. Michel procura nortear seus passos na música através de cinco tópicos que enumera a seguir que chamou de "Ética na Música".
Aproveite o texto.

Abrir a Mente
Na grande maioria das vezes, o músico, quando ainda criança, entra em contato com a música através do que seus pais (ou seus familiares) ouvem. Então, começa a absorver as influências, tanto do som quanto do que as pessoas falam, por exemplo: "Isso que é música...", e outras opiniões "imparciais".
Pela minha experiência pessoal e pelo que vejo se repetir diariamente (no caso dos guitarristas que vêm estudar comigo), quase todos (95%, me arrisco a dizer) começam ouvindo e tocando os primeiros acordes através do rock.

Então, daí, seguem-se anos dissecando essa música, refinando a técnica, conhecendo artista a artista em seus detalhes, etc. Cria-se, assim, um condicionamento!  Em minha opinião, um estilo musical é apenas uma porcentagem do todo que é a arte da música, que data desde tempos imemoriais. Pra que se limitar, quando se pode abrir as perspectivas da sua arte?

Surge, então, o dia em que esse músico sente a necessidade de expandir, de fazer algo diferente, de aprender harmonias e ritmos diferentes. Assim, ele parte pra explorar outros "continentes musicais". Nessa hora, os preconceitos deverão ser pulverizados, numa atitude em prol da evolução.
Tenha certeza de que não vão faltar os críticos radicais e os questionamentos do tipo: "Vai deixar de ouvir música de macho?" E outras pérolas da sabedoria ocidental. Aprender de outras fontes, sair da rotina, abrir a mente, expandir as possibilidades musicais, essas são atitudes pro verdadeiro músico.

Rótulos
Rótulos são mentirosos e manipuladores. Como alguém pode definir com uma ou duas palavras a música de um artista? Não caia nessa! Pra conhecer realmente um artista, escute-o, ouça várias fases da carreira dele. E pra definir o seu som pra alguém, mostre-o!

Seria lindo se fossem abolidos os rótulos; se tudo fosse chamado simplesmente "Música", os preconceitos seriam desencorajados.
Algumas das situações mais legais na minha vida aconteceram ao tocar meu som pra públicos totalmente desavisados, que estavam ali pra ouvir outro som, e que, no final, acabaram curtindo o que eu estava fazendo. Não existe essa de "rock X jazz", ou "música popular X música erudita"...

Deixe isso existir só na cabeça de quem não gosta de tocar, ou não gosta de música e, sim, de conflitos.  Música boa é música boa, seja um forró, uma peça de Stravinsky ou Led Zeppelin. A música que tem alma é diferente, por exemplo, da música feita única e exclusivamente pra estourar nas FMs e nos geniais programas de auditório dominicais! A motivação é fazer música, o resto é ambição material. Essência independe do "estilo musical".


Siga a sua Intuição
Muitas pessoas têm seu dogmas musicais, do tipo: "Comece seu solo com poucas notas" ou "Faça uma coisa mais comercial!". Sempre tem alguém com conselhos pra lhe dar...

Tenha discernimento e escute os mais experientes, os caras que você vai ver tocar e transmitem música! Esses são os mestres, siga-os, aprenda, e, se possível, toque com eles. Nem sempre quem tem diploma de faculdade de música, por exemplo, tem sabedoria musical, ou transmite algo ao tocar. Não se impressione pela erudição, procure a sabedoria verdadeira. Enfatizo aqui a intuição, baseado no fato da música não ser apenas uma ciência, como muitos querem acreditar. Porque a música te emociona? Porque você tem a necessidade de tocar? Certamente essas coisas não viriam de uma coisa que é pura ciência!

Sendo assim, baseie seus estudos no que você sente mais necessidade; seja perseverante, determinado. Estude todos os detalhes dos acordes, das escalas, de sobreposições de arpejos, melhore seu tempo, etc, etc. Mas na hora de tocar, a música manda! Esse preparo todo, essa investigação teórica, vai te ajudar a conhecer mais sons e possibilidades. Mas, repito, na hora de tocar, ninguém quer saber se você está tocando a escala x ou y. Aí é que entra a Intuição! E outra, se você está realmente curtindo o que está fazendo, tenha certeza de que outros estarão também e entrarão na sua 'viagem'.
E só a música (e não o raciocínio matemático ou coisa parecida) dará essa sensação de elevação; a emoção de ir a lugares desconhecidos e maravilhosos. Tocar é estar em Comunhão!

Ansiedade por reconhecimento
Não fique querendo reconhecimento sem o devido esforço. Tem vários caras que logo ao aprender três acordes, já reclamam por não terem aparecido na Guitar Player desse mês! Mude o foco: Cuide da música, que tudo virá naturalmente. O sucesso a que (particularmente) anseio é poder tocar, poder evoluir. O sucesso está no processo. Tudo o que vier a mais é lucro!


Seja realista
Ao se conseguir um avanço, em qualquer área, é próprio do ser humano ter uma tendência a enaltecer-se ou ficar um pouco 'convencido'. Na música isso acontece bastante.  Tente converter esse sentimento em simples alegria e agradecimento. Tem uma frase no livro "Tao-Te-King" que diz o seguinte: "O verdadeiro sábio é aquele que se coloca sempre abaixo dos outros". O orgulho e o culto ao ego podem ter espaço no "show-business", mas não na verdadeira música. Os melhores músicos com quem já toquei são pessoas de humildade à toda prova! Eles tocaram 'para' e não 'contra'! Não houve disputa, houve generosidade, houve "ouvir o outro", mesmo eles sendo mais experientes. A própria música periodicamente nos dá uma 'porrada' e nos coloca no nosso "devido lugar"! Tudo vai bem até que "POUW"! Você se ouve tocando, ou vê um cara tocando muito, e aí você é questionado: "E agora? Vai querer evoluir ou vai ficar nessa?" É a música quem pergunta!
Nessa hora, o orgulho e as desculpas do tipo "o amplificador era muito ruim!" não enganam a ninguém. Seja realista! E quando se sentir "o rei da música", cuidado! Ela mesma vai te mostrar que "o buraco é mais embaixo". E isso é maravilhoso! É uma oportunidade de evoluir. Ultimamente ando suplicando à Música para que Ela, ao menos, passe na porta do lugar onde estarei tocando! Imagine o dia em que ela resolver entrar e tomar um café então... Vai ser uma experiência cósmica!O verdadeiro músico está sempre se preparando pra servir à música, e não ao seu próprio ego.

Desejo-lhes saúde, paz e muita música!
Um grande abraço!

Michel Leme

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